Esquecidas no tempo, ferrovias do Paraguai viram relíquias do século XIX
O trem a vapor e as oficinas centrais de manutenção das Ferrovias do Paraguai S.A. (Fepasa), companhia de vanguarda no final do século XIX, parecem hoje esquecidos no tempo, mas se mostram uma relíquia em um país carente de serviços ferroviários.
Diante de uma imagem de "aqui jaz estacionada uma antiga locomotiva", os visitantes e turistas seguem em direção à estação e ao imponente Museu Vivo das Oficinas da Ferrovia de Sapucai, situadas ao sudeste de Assunção.
Esse estabelecimento, localizado a cerca de 90 quilômetros da capital paraguaia, guarda as maquinas - ainda movidas a vapor - que foram instaladas em 1894 e que eram usadas na manutenção, fabricação e reparação das locomotivas, verdadeiros emblemas da prosperidade de épocas passadas.
Atualmente, o Paraguai carece de um sistema ferroviário, embora tenha sido um dos primeiros países do continente a contar com ferrovia, inaugurada em outubro de 1861 com um primeiro trajeto de passageiros entre Assunção e o então município de Trinidad, que hoje é um bairro.
As oficinas de Sapucai, instaladas estrategicamente em uma colina por causa da abundancia em água, conta, além disso, com armazéns e um museu que recorda a mobília e os aparelhos de comunicação da época, como telégrafos e antigos telefones que em seu conjunto podem ser apreciados em um percurso temático.
"O que se vê em Sapucai é algo único em nível regional. Não acredito que poderá encontrar uma antiga oficina que ainda tenha o sistema de transmissão a vapor em qualquer país", declarou à Agência Efe o presidente da Fepasa, Marcelo Wagner.
De acordo com o titular da Fepasa, as oficinas de trem de Sapucai estão catalogadas como patrimônio histórico e cultural do país e que, atualmente, buscam um reconhecimento de patrimônio histórico mundial perante a Unesco.
Esse projeto também procura restaurar da chamada Vila Inglesa, situada próxima às oficinas e que é formada por antigas casas onde residiam os engenheiros, mecânicos e especialistas ingleses que foram contratados para a instalação e operação das primeiras locomotivas.
"Hoje este esplendor e esta engenharia seguem vigentes. Não há nenhuma mudança substancial em nenhuma das máquinas", relatou o presidente do Centro de Industriais Metalúrgicos (Cime), Ramiro Vargas Peña, que trabalhou na restauração das oficinas.
"Me assusto ao imaginar como eles manejavam essas máquinas naquela época, tendo em vista que essas são praticamente as mesmas que se manejam hoje. Mudaram somente a força motriz, que antes era a vapor", declarou Peña, que ressaltou: "Nessa época tudo era mais natural e rústico".
"Não havia luz elétrica (...) Para o desenvolvimento de uma ferrovia a vapor é necessário uma grande quantidade de água. Isso se encontra aqui em cima nas colinas, sendo esse o motivo pelo qual a estação principal e as oficinas foram instaladas em Sapucai", completou.
"Este era o motor, o pulmão da cidade de Sapucai. Na época de esplendor, havia mais de 600 trabalhadores contratados dentro das oficinas", afirmou, por sua parte, o secretário-geral da Prefeitura de Sapucai, Claudio Báez, que, no entanto, lamentou que "a ferrovia acabou morrendo lentamente".
A rede de trem foi estendida até Encarnación, situada no extremo sul do país, na fronteira com a Argentina, mas sucumbiu diante das sucessivas vendas ao capital estrangeiro e da destruição quase total de suas estruturas durante a Guerra da Tripla Aliança contra Brasil, Argentina e Uruguai (1865-1870).
As tentativas de revitalização registradas nas primeiras décadas do século XX toparam com uma nova guerra - a do Chaco, com a Bolívia (1932-35) - e a concorrência do transporte por caminhão. A partir daí, em 1959, o serviço se deteve, e a companhia voltou às mãos estatais.
Mais tarde, em 1999, a última rota regular que seguia em funcionamento com locomotivas a vapor, entre Assunção e Ypacaraí (38 quilômetros), foi fechada em definitivo, embora, às vezes, ainda seja explorada como passeio turístico.
Nos últimos anos, houve sucessivas iniciativas de resgate da rede. Neste aspecto, o presidente da Fepasa falou sobre projetos, em etapa de prospecção, para modernizar e instalar um serviço de transporte de passageiros da capital até Ypacaraí, além da projeção de ampliar esta rede em direção a mais localidades.
A chamada "rede bioceânica", que daria possibilidade do Paraguai - um país sem costa - se conectar com os oceanos Pacífico e Atlântico, também estaria dentro desses projetos.
Neste caso, o principal objetivo seria ligar o distrito de Presidente Franco e Ciudad del Este, próxima ao Brasil, com a cidade de Pilar, na fronteira com a Argentina, após atravessar o Paraguai pelo sul e passando por Encarnación.