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Turismo

Fordlândia: a cidade-fantasma na Amazônia que o Brasil esqueceu

O empreendimento é considerado um dos maiores fracassos da história da Ford no Brasil [...]

19 fev 2025 - 12h02
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Há 100 anos, na edição inaugural d'O Globo, um Brasil desconhecido era escrito em letras grandes, logo abaixo do cabeçalho: "Voltam-se as vistas para a nossa borracha!".

Naquele 29 de julho de 1925, Fordlândia era a primeira manchete da história do jornal, seguida de um questionamento: "O que o Sr. Ford vem fazer no Pará". Sem confirmar nem desmentir o boato, o jornal anunciava que o "archi millionario" viria a Belém (PA) para encontrar uma solução para os altos preços da borracha causados pelo monopólio inglês.

Quase um século depois, a vila de Boa Vista, mais conhecida como Fordlândia, ainda guarda as ruínas (e o descaso) daquilo que foi um dos maiores fracassos da história da montadora no Brasil, no município de Aveiro.

Fordlândia, no Pará
Fordlândia, no Pará
Foto: Wikimedia Commons / Viagem em Pauta

A cerca de 400 quilômetros de Santarém, às margens do Rio Tapajós, o empreendimento funcionou de 1928 a 1945 como uma tentativa de plantar árvores para fornecimento de látex para as fábricas da montadora nos Estados Unidos. Como noticiaria a revista Time, indígenas brasileiros abririam caminhos para "limpadores de para-brisas, tapetes e pneus".

"A vinda de Ford para o Brasil ocorreu na transição entre duas eras, quando a era da aventura dava lugar à era do comércio", descreve Greg Grandin, autor da biografia Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva (editora Rocco).

Ford pode até ter domado máquinas e homens com seu bem sucedido sistema de produção industrial, cara pálida, mas na Amazônia o buraco da seringueira é bem mais embaixo.

A maior floresta tropical do planeta não respeita sirenes de fábrica nem relógios de ponto e o projeto de uma cidade-modelo seria um desastre rio abaixo. Logo de cara, os homens enviados ao norte do Brasil encontrariam altas temperaturas, doenças tropicais e solo inadequado para plantio.

Não demoraria muito para aquela insatisfação virar um quebra-quebra geral.

Vista aérea de Fordlândia, em 1934
Vista aérea de Fordlândia, em 1934
Foto: Wikimedia Commons / Viagem em Pauta

Atraídos pela possibilidade de emprego, os trabalhadores brasileiros contratados não concordavam com o modelo Ford de trabalhar e de viver, e em 1930 protagonizariam o que ficou conhecido como 'Quebra Panela', um protesto que começou no refeitório da empresa e levou Fordlândia à destruição.

Ford havia estabelecido uma rotina que desconsiderava a cultura local, como o uso de soja, hambúrguer e arroz integral nas refeições. Já as atividades de lazer propostas incluíam recitais de poesia e sessões de documentários sobre a África e Yellowstone, o parque nacional mais antigo do mundo, mas sem nenhum interesse para aquela gente na beira do Tapajós.

Sem falar no uso de crachás e na Lei Seca, importada de Detroit e instituída pela empresa na Amazônia.

"Na arrogância de grande empresário, Ford não se preocupou em conhecer o povo local nem em saber como a seringueira era plantada. Ele negou toda a cultura ancestral e fez do jeito dele, que não deu certo", analisa o carnavalesco Mauro Quintaes, em depoimento para o Viagem em Pauta. Em 2025, sua escola Unidos do Porto da Pedra terá Fordlândia como tema de seu enredo (leia mais abaixo).

No início do ano anterior ao protesto, O Globo publicava também uma denúncia sobre operários capturados pela polícia de Santarém, após fugirem do trabalho, devido aos "minguados salarios" e "comida da peor qualidade". Segundo o texto, os insurgentes tinham 24 horas para deixar a cidade e retornarem "ao captiveiro do millionario norte-americano".

"Como é sabido, a intolerancia do governo achou acertado fazer voltar a escravidao os que haviam della se livrado, para o que os senhores do poder se valeram da soldadesca armada, em Santarém", dizia o artigo.

De acordo com o site da organização, em Dearborn, no Michigan, um dos objetivos da Ford Motor Company do Brasil era "proporcionar uma vida melhor para os brasileiros que viviam e trabalhavam nas plantações".

Foto: Pexels/Creative Commons / Viagem em Pauta

Mais erros

Um dos grandes erros de Ford, ainda de acordo com o biógrafo de Fordlândia, foi tratar "máquinas como seres vivos". Na Amazônia, "esperava que seus homens tratassem seres vivos - as seringueiras - como máquinas".

Outro erro grave foi o pouco espaçamento entre as árvores, desconsiderando que a matemática da linha de produção não servia para ambientes como a floresta amazônica. Próximas uma das outras, as seringueiras estavam fadadas a ataques de pragas ou insetos.

Apenas em 1933, a cidade fordista teria ajuda científica do botânico James Weir que, no ano seguinte, sugeriu a transferência da empresa para Belterra, a mais de 100 quilômetros dali. "Depois de gastar seis anos e US$ 7 milhões (…) a família Ford tinha decidido ouvir os conselhos de um especialista, mesmo que isso significasse começar de novo", explica Grandin.

Fordlândia
Fordlândia
Foto: The Henry Ford/Flickr-Creative Commons / Viagem em Pauta

No novo endereço, cerca de 250 mil lagartas foram retiradas, em cinco horas de trabalho inútil. Mesmo atacada por uma epidemia de pragas que mataria 70% das árvores, em 1940, essa cidade próxima a Santarém conseguiu ainda produzir 750 toneladas de látex, bem abaixo das 20 mil toneladas projetadas.

Ford rejeitou os conselhos de especialistas para insistir na ideia "de transformar a Amazônia no Meio-Oeste da sua imaginação", analisa o biógrafo.

No entanto, o imbróglio começara meio século antes da chegada da Ford no Pará.

Em 1876, o botânico Henry Wickham havia levado 70 mil sementes de seringueiras amazônicas de uma área próxima à futura Fordlândia. Enviado para Londres, o contrabando seria transformado em mudas comercializadas na Ásia, abrindo espaço para a concorrência do látex do outro lado do mundo.

Quando a montadora de Detroit chegou à Amazônia, a região já não era tão próspera como na época do Ciclo da Borracha, em Manaus (AM) e Belém (PA), entre o final do século 19 e início do 20.

O contrabando encabeçado por Wickham é considerado um dos maiores casos de biopirataria do mundo amazônico.

Em 1945, com Henry Ford e seu filho Edsel já mortos, a empresa venderia aquelas terras ao governo brasileiro por um valor, infinitamente, mais baixo do que valiam.

Nas contas apresentadas pelo biógrafo, Fordlândia e Belterra estavam avaliadas em oito milhões de dólares, vendidas por pouco mais de 240 mil dólares.

Fordlândia seria abandonada para sempre.

Hospital em Fordlândia
Hospital em Fordlândia
Foto: Wikimedia Commons / Viagem em Pauta

Fordlândia no hospital

A menos de um quilômetro da margem do Rio Tapajós repousam os restos do edifício que um dia abrigou o hospital local, um bem equipado "sanatório da selva" com laboratórios e salas de cirurgia e de raio X. Junto com a unidade de Belterra, a empresa oferecia mais de 120 camas, além de farmácias e consultórios dentários.

No entanto, mesmo com toda a história de Fordlândia, o longo processo de tombamento do local, que tramitou há mais 30 anos, foi indeferido, em 2023. Naquele ano, o Ofício Nº 46/2023/CGID/DEPAM-IPHAN afirmava que o indeferimento se justificava por não terem sido identificados "valores excepcionais do ponto de vista histórico, paisagístico ou arqueológico no bem".

Procurado pelo Viagem em Pauta para mais detalhes, o Iphan informou, via Seção de Relacionamento com a Imprensa, que não tinha disponibilidade de porta-voz para atender ao nosso pedido de entrevista. Porém, enviou nota informando que o Processo de Tombamento das Áreas de Belterra e Fordlândia, em Santarém e Aveiro, foi arquivado em 2024 e que, por essas não serem "regiões acauteladas em nível federal, a autarquia não tinha informações sobre a possibilidade de abertura de visitas no local".

O Iphan destacou também que "o cuidado com esse patrimônio não se restringe ao instrumento do tombamento, sendo possível uma diversidade de ações nos mais diferentes níveis da federação, incluindo estados e municípios".

No entanto, assim como lembra o MPF (Ministério Público Federal), o próprio Iphan chegou a celebrar um Acordo de Preservação Cultural com o Ministério da Cultura, o Estado do Pará e o Município de Aveiro, em 2010, prevendo "a recuperação, restauração e revitalização dos prédios públicos e das antigas casas, bem como a valorização dos bens imateriais e o melhor aproveitamento do patrimônio histórico e dos bens naturais visando o desenvolvimento econômico, cultural e do setor turístico da região."

Infelizmente, as propostas não avançaram.

Fosse na Europa ou em algum outro país do hemisfério norte, certamente, o local já teria sido transformado num daqueles bem sucedidos "museus a céu aberto" que recriam cenários de tempos passados.

A reportagem não conseguiu contato com a Secretaria Municipal de Cultura, em nenhum dos meios disponibilizados pela Prefeitura de Aveiro.

Nos 17 anos em que atuo na editoria de viagens, tentei diversas vezes visitar Fordlândia para a realização de matérias no local, mas fui ignorado em todas elas, tanto por empresários como por órgãos oficiais de promoção do turismo no Pará.

Mário de Andrade, em Belém, na exposição no MASP
Mário de Andrade, em Belém, na exposição no MASP
Foto: Divulgação / Viagem em Pauta

Ford daqui e dacolá

Dois anos depois da reportagem n'O Globo que abre este texto, o escritor paulistano Mário de Andrade também faria referências àquela cidade no meio da floresta.

Durante sua viagem comprida pela Amazônia, entre maio e agosto de 1927, o poeta chegou a escrever em seu diário de bordo sobre a misteriosa visita de Ford ao Brasil, que ele chamou de "perigoso sintoma do imperialismo ianque".

"Andou, faz algum tempo, uma comissão norte-americana pelo Amazonas, estudando o problema do comércio da borracha, com ideias de fixar um ponto com todas as condições necessárias, mesmo de salubridade, em que os norte-americanos pudessem se estabelecer. Anda daqui, anda dacolá, ficaram gostando muito de Santarém e arredores (…)"

('O Turista Aprendiz - Mário de Andrade)

A primeira grande viagem desse antiviajante declarado começou num trem até o Rio de Janeiro, precedida de um sem-fim de arrependimentos, e seguiu marítima pelo Nordeste, foz do Amazonas, Belém, Santarém, Parintins, Itacoatiara, Manaus e Manacapuru.

Aquela expedição cheia de sonhos, floresta e protocolos oficiais foi feita na companhia da mecenas Olívia Guedes Penteado, sua sobrinha Margarida e a filha de Tarsila do Amaral, a Dulce.

O que se veria dali para frente era vida inédita (para Mário e para o Brasil). Como se previsse o que aconteceria um século depois, esse é mais um exemplo da preocupação que o poeta tinha com a preservação de bens históricos do Brasil, desde que estivera nas cidades históricas de Minas Gerias, em 1924.

Cartaz oficial da escola de samba Porto da Pedra (Divulgação)
Cartaz oficial da escola de samba Porto da Pedra (Divulgação)
Foto: Viagem em Pauta

Vai dar samba

Se órgãos oficiais ainda não se convenceram do valor histórico de Fordlândia, em 2025, o samba vai fazer da utopia, realidade.

No Carnaval deste ano, a Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra, do município de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, se apresenta no Grupo de Acesso com o enredo 'A história que a borracha do tempo não apagou'.

A história será contada desde tempos ancestrais, quando a região de Fordlândia era conhecida como Mundurukânia.

Munduruku

É o Sol que brilha lá no Norte, a nossa voz

Vento que sopra pelo Rio Tapajós

É o som da mata que ecoa na raiz

(trecho do samba-enredo da Porto da Pedra 2025)

"O grande recado do enredo é que a floresta vence, o que é nosso é nosso. É um enredo muito contemporâneo, muito atual porque o Brasil sofre até hoje com esse tipo de ação", analisa o carnavalesco Mauro Quintaes.

Viagem em Pauta
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