Levando o luxo a um novo nível em Santa Lúcia
Kate Zernike
Ao retornar ao Cap Maison após o jantar, paramos na frente do restaurante e perguntamos se havia pelo menos um dos biscoitos com gotas de chocolate que nos receberam tão bem quando meu marido e eu chegamos dois dias antes. "É claro", responde o garçom sorridente, nos levando até o bar, onde o barman nos serve taças de vinho ao som das ondas batendo nas rochas a 15m abaixo de nós.
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Não muito tempo depois, o garçom retorna com dois pratos arrumados com vários biscoitos recém-assados e uma pequena cumbuca branca, que ele descobre, revelando um chocolate quente perfeito para mergulhá-los. "Não tínhamos nenhum, então tivemos que assá-los", falou, como se tivesse algo pelo qual se desculpar. "Fazemos a massa à mão."
Dando boas-vindas aos seus primeiros hóspedes no último outono caribenho, o Cap Maison é o último de um conjunto de novos hotéis de luxo que estão redefinindo o mercado de turismo em Santa Lúcia, tornando o Caribe o novo ponto quente para construtoras do segmento e prósperos caçadores de sol.
Há muito tempo, a ilha é dominada por resorts completos, com danceterias e parques temáticos, e também por hotéis menores ocupados por turistas promocionais. Só o grupo Sandals possui três resorts na ilha, que é um pouco menor que o estado da Bahia.
Os novos hotéis vendem luxo com pouco brilho e ótimo serviço, um tipo de São Bartolomeu sem logotipos de marcas. Ao norte ficam o Cap Maison, um hotel butique com 50 quartos, e o Landings do Rock Resort, que tem uma marina que espera usufruir da popularidade de Santa Lúcia entre navegadores. Na costa oeste, com vista para os famosos picos Pitons da ilha, está o Jade Mountain, o luxo do luxo, onde hóspedes têm à disposição seu próprio mordomo para cuidar de qualquer necessidade ou capricho durante sua visita. Descendo os montes exuberantes, temos o Tides - empreendimento de resorts e spas cuja marca registrada é um assistente pessoal para cada hóspede -, que está gastando US$ 100 milhões para transformar o resort Jalousie Plantation no Tides Sugar Beach, com previsão de conclusão em 2010. Dito isso, mil quartos de hotel foram adicionados no ano passado, 80% deles de alto luxo, levando à ilha a um total de cinco mil, com outros mil previstos para o próximo ano.
Parece ser um desejo de se manter atual, e talvez uma forma de transformar seus defeitos em virtudes. Santa Lúcia não tem as longas praias brancas e macias de outras ilhas do Caribe ou do México. Suas íngremes estradas em ziguezague podem tornar o simples ato de sair para jantar, ou explorar as cidades, uma aventura. Mais próxima da América do Sul do que de Miami, suas águas são quentes, mas escuras, sem a atração do mar das outras ilhas.
Sua atratividade, em vez disso, recai em sua altitude e profundidade: as incríveis montanhas Piton, despontando do mar como dentes afiados; a floresta tropical e o vulcão no centro da ilha; os penhascos escarpados e as calmas enseadas repletas de palmeiras, cujas águas profundas fizeram da ilha um território disputado entre franceses e britânicos por 300 anos.
Nos últimos anos, empreendimentos em outras ilhas começaram a atingir seu limite e se voltaram para Santa Lúcia, percebendo que sua topografia complicada tinha ao menos um grande benefício: construídos nos penhascos, quase todos os quartos poderiam ter vista para o mar. Nas palavras de Allen Chastanet, ministro do Turismo, "é a hora de Santa Lúcia".
Vôos diretos aumentaram de Miami, Charlotte, Carolina do Norte e Filadélfia (chegar à ilha a partir de Nova York, entretanto, ainda leva praticamente um dia inteiro). E há quatro anos, Oprah Winfrey colocou as Piton entre os cinco lugares para se conhecer antes de morrer. (Menos afortunada, a cantora Amy Winehouse recentemente passou várias semanas na ilha, e suas várias escapadas - com direito a topless, tombos de bebedeira e afagos com um modelo pouco conhecido que de repente se tornou uma celebridade para os tablóides da Grã-Bretanha - foram o paraíso dos paparazzi.)
Ross Stevenson, gerente-geral do Cap Maison, define dois extremos no exercício da hotelaria: alta tecnologia; pouco calor humano ou pouca tecnologia; muito calor humano. Os empreendimentos em Santa Lúcia tendem ao último. O Cap Maison, quase literalmente: ele dá boas vindas aos hóspedes com uma massagem de 30 minutos no spa de frios pisos de terracota e altas cortinas brancas e onduladas. "Alguns se entusiasmam com uma cortina que se move ao toque de um botão", diz. "Para mim, o que conta é o que você faz para os hóspedes. Isso desarma as pessoas. É por isso que estão aqui, para voltarem para casa recarregados."
Os proprietários, Theo e Helen Gobat, criaram três filhos em Santa Lúcia e dirigem hotéis no mundo todo. Em 1989, compraram uma casa térrea irregular à sombra de uma frondosa árvore em uma antiga plantação de açúcar nos penhascos do Cap Estate, no lado norte da ilha, onde o Atlântico proporciona um Caribe mais tranqüilo e temperado.
Há alguns anos, compraram lotes adicionais e começaram a construir o Cap Maison. O hotel mantém a sensação de um enclave privado. Os quartos são organizados em uma série de vilas espanholas distribuídas pelos penhascos e pátios internos. Os banheiros têm azulejos azuis e brancos pintados à mão e são abastecidos com loções e xampus Acqua di Parma. Cada vila tem um terraço de frente para o oceano, e muitas, chuveiros ao ar livre. As vilas mais luxuosas são triplex com bares e piscinas no andar superior, que podem ser combinados a unidades vizinhas, formando residências grandes o bastante para receber famílias e grupos maiores. As piscinas são pequenas, mas adoráveis, com duas piscinas infinitas caindo sobre a principal na beira do penhasco rochoso. Uma adega para 1,5 mil garrafas de vinho está em construção, onde os hóspedes também poderão jantar privativamente. O restaurante, sob a direção de um chef galês rastafariano, oferece um pequeno, mas rico cardápio: pequenas porções de pato ou coelho local grelhado como entrada, um risoto com anis estrela (a jóia do repertório local de temperos), frutos-do-mar da região e um suflê de amêndoas com uma crosta perfeita de açúcar.
Existem três bares: um no restaurante, outro em uma pequena praia e mais um num banco de areia na base do restaurante. Uma tirolesa, usada normalmente para arremessar turistas de aventura entre árvores de florestas tropicais, transporta do bar de cima cestas repletas do que Holly Golightly chamou de "reforços". (Você entende a sabedoria do sistema quando, numa tarde, um garçom, preparando uma festa privada, sobe as escadas ao invés de usar a tirolesa e deixa cair pelo penhasco uma cesta cheia de garrafas e taças.)
Até agora, o resort de alto nível mais conhecido de Santa Lúcia era o Ladera, na costa caribenha. Ele começou como um amontoado de altas habitações de madeira, e há cerca de 15 anos foi incorporado a um hotel com restaurante e piscina à beira do penhasco. O Ladera foi pioneiro na idéia de quartos com apenas três paredes - a quarta é aberta, uma paisagem formada pelos picos Pitons - e você se sente em sua própria casa da árvore, com piscinas de imersão e camas acortinadas com imagens de copas de árvores.
O Jade Mountain, a mais cara das novas opções, adotou o conceito da ausência da quarta parede e o institucionalizou, com quartos maiores e mais modernos, e piscinas infinitas mais amplas e mais elaboradas em cada um deles. Visto da água, o hotel surge dos montes verdes como uma porta de garagem, cada quarto acessado por sua própria ponte de aço suspensa. Mas os resorts levam a abordagem de baixa tecnologia a sério: não há televisões ou telefones nos quartos.
Com a crise econômica mundial, pode ser um momento difícil para se investir em luxo. Em novembro, taxistas e funcionários se preocupavam com o atraso na construção de um resort Raffles planejado. A construção do Westin Le Paradis Beach & Golf Resort também foi interrompida no lado leste da ilha, embora a companhia mantenha os planos de inauguração em meados de 2010.
Mas o Cap Maison e o Jade Mountain parecem ter chegado ao mercado na hora certa. Em 12 meses,todas as suas unidades exclusivas foram alugadas e suas vilas estavam todas reservadas para o Natal e Ano Novo antes mesmo do resort estar oficialmente aberto.
"Se você for investir em Santa Lúcia, não faz sentido competir no segmento popular", disse Stevenson. "Santa Lúcia estava pedindo por um produto de alto nível."
Os empreendimentos de luxo levaram ânimo - e distúrbio - à ilha. "Vão pavimentar as ruas só depois de terminarem todos os prédios", reclama um taxista enquanto saímos aos solavancos de Castries, a cidade principal. Quando será isso? "Quem sabe!" No Landings, após chegar ao lobby de mármore, você sobe em um carrinho de golfe que passa por uma trilha de lama ressecada de uma zona de construção atrás do hotel para chegar ao restaurante. No percurso, você vê uma piscina adorável ao lado do canal da marina, uma vista estragada apenas pelos guindastes da construção da nova fase do hotel.
Chastanet sonha em transformar a ilha no que chama de "destino", um lugar onde todos os visitantes querem explorar em sua plenitude. Isso ainda não é uma realidade: as cidades mais fáceis de se chegar ainda estão ligadas ao cais, tanques de petróleo e mercados escuros e pouco convidativos. As cidades menores têm poucos restaurantes ou conforto.
Mas os novos resorts também não dão muita razão para fazer você sair. Eles envolvem o visitante numa sensação de refúgio, mas ainda revelam os pequenos charmes da ilha. No café da manhã, vimos uma tripulação de homens, a maioria nua, passar em uma pequena esquife. Perto do bar nas rochas, desligaram os motores e lançaram uma rede na água. Mergulharam, prenderam a rede em um tipo de grande ferradura e, então, nadaram em sua direção para capturar os peixes.
Voltamos ao nosso café e nos concentramos em nossa cesta de bolos matutinos ainda quentes. Eles eram pequenos pain au chocolat, croissants e muffins de abóbora. E, no fundo, mais biscoitos.
Como chegar
A American Airlines e a Delta Air Lines saem de Nova York para Santa Lúcia com passagens para o próximo mês a partir de US$ 485, segundo uma pesquisa recente na Internet.
O Aeroporto Internacional Hewanorra fica do lado sul da ilha, a uma hora de carro da maioria dos hotéis, que se concentram no norte ou oeste. A maioria dos resorts providencia serviços de carro (US$ 150 por grupo) ou helicóptero (US$ 170 por pessoa) - uma forma de evitar as problemáticas estradas. A maneira mais rápida de viajar entre as cidades e os resorts é de barco ou táxis marinhos, uma ótima forma de apreciar os dramáticos desfiladeiros e o terreno diverso.
Onde ficar
O Ladera é a mais tradicional das opções de luxo, e ainda a mais exótica, com suas vistas panorâmicas para os picos Pitons. Quartos duplos a partir de US$ 615 no inverno (janeiro-abril) e US$ 380 no verão (758-459-7323; www.ladera.com).
No Jade Mountain, um quarto duplo com piscina infinita tem diária a partir de US$ 1.450 de janeiro a meados de abril e a partir de US$ 1.150 no verão (758-459-7000; www.jademountainstlucia.com).
No Cap Maison, onde as vilas em estilo espanhol são organizadas em volta de pequenos pátios, incitando uma sensação de cidade pequena, os duplos custam a partir de US$ 565 no inverno e US$ 405 no verão (758-457-8678; www.capmaison.com).
O Landings, novo empreendimento da Rock Resort, ocupa quase 77 mil m² na marina da baía Rodney. Todos os quartos têm cozinhas, as quais o resort abastece antes da chegada do hóspede. Duplos com diárias a partir de US$ 334 (758-458-7300; www.landings.rockresorts.com).
O Cotton Bay Village é a versão em hotel de um condomínio fechado do lado do Atlântico menos desenvolvido da ilha, onde a água é mais fria e mais dramática. Apartamentos de um quarto a partir de US$ 500 em fevereiro e março e US$ 310 em setembro e outubro (758-456-5700; www.cottonbayvillage.com).
O Discovery, na baía Marigot, abriu em 2006 e tem duplos a partir de US$ 440 no inverno, US$ 330 no verão (758-458-5300; www.discoverystlucia.com).
Onde comer
Os melhores restaurantes costumam ser os dos novos hotéis de luxo, e as opções externas podem ser limitadas. Hotéis como Jade Mountain e Cap Maison oferecem a opção de incluir almoço e jantar por um extra de US$ 75 ou US$ 100.
O Dasheene, no Ladera, vale a pena conhecer só pela sensação de sentar no topo dos picos Pitons.
Nas águas de Castries, o Coal Pot (758-452-5566) é o tradicional favorito para degustar a cozinha local.
O Tao (758-450-8551), no resort Le Sport - onde Amy Winehouse fez notícia quando esteve em Santa Lúcia recentemente - oferece combinações asiáticas em um balcão de frente para o mar.
Tradução: Amy Traduções